“The Answer is blowin’ in the wind”(A resposta
está sendo levada pelo vento)
Se em outra oportunidade apontamos a influência do blues e seus
acordes musicais como fundamentais para a existência do rock and
roll, não podemos, igualmente, esquecer a
contribuição do folk e do country para o amálgama
deste fenômeno. Podemos afirmar, mesmo correndo o risco de certa
simplificação, que estes dois últimos estilos
constituíram a colaboração “branca” ao
produto final. O término dos anos 1950, basicamente marcado pelo
rock and roll, acima de tudo dançável, transformar-se-ia,
no início dos anos 1960, no estilo musical simplesmente
denominado como rock.
No “lado de cá do Atlântico”, ou seja, nos
Estados Unidos da América, Bob Dylan seria um dos maiores
responsáveis por esta contribuição folk/country. A
influência das letras de Dylan ocorreu em meio à
efervescência da geração beat e encontrou sua raiz
na obra elaborada por Woody Guthrie. Em 1960 Dylan mudou-se para Nova
York e encontrou-se com este seu ídolo, dando sobrevida,
juntamente com o filho deste, Arlo Guthrie, a uma tendência
caracterizada por letras de cunho social provenientes do cotidiano de
trabalhador humilde vivido pelo veterano compositor. Se o blues
já revelava o mundo real, com todas as suas dores e sofrimentos
existenciais, a contribuição do binômio
Guthrie/Dylan colocaria mais “lenha na fogueira”
A poesia e a rebeldia representadas pela chamada contracultura
tornava-se cada vez mais a expressão desesperada de uma
geração que refletia o lado obscuro de uma sociedade que
ainda vivia a lógica do modo americano de viver (American Way of
Life), mas que possuía suas contradições internas
ao não proporcionar a um considerável contingente
populacional os benefícios daqueles anos dourados da virada de
década(1950/1960). Passada a geração
“rebelde sem causa”, consagrada por Hollywood
através de papéis marcantes no cinema, vividos por James
Dean e Marlon Brando, sobrevieram personagens como Jack Keruac, Allen
Ginsberg, na literatura e, acima de tudo, Robert Zimmermann (Bob
Dylan), na música, cujas reflexões e poesias abriram
caminho a uma juventude cada vez mais questionadora do establishment.
Enquanto conservadores e liberais, republicanos e democratas,
partidários militares da guerra (hawks/falcões) e da paz
(doves/pombos), se digladiavam em clivagens que incluíram desde
o assassinato do presidente Kennedy à crise dos mísseis
de Cuba e a intervenção norte-americana na Guerra do
Vietnã e Camboja, a sociedade cada vez mais tomava
consciência e, sobretudo, assumia posições em
relação às grandes questões nacionais e
internacionais. A música folk/country expressa por Dylan foi
exatamente a trilha sonora deste momento peculiar da história
americana e mundial. Ela passou a ser a alternativa de expressão
dos que se recusaram à imposições
ideológicas. “...quantas vezes devem as balas de
canhão explodir até que sejam banidas para sempre?A
resposta, meu amigo, está sendo levada pelo vento” Na
época, Dylan afirmava: “Minhas canções
protestam contra a guerra, as bombas e os preconceitos raciais, contra
o conformismo” Mesmo com certa oposição de
muitos tradicionalistas, Dylan quebrou os cânones do folk em
1965, eletrificando-o e dando um vigor expressivo a
músicas como “Mr. Tamborinne Man” combinadas com
denúncias ácidas do sistema, como em “Desolation
Row”A participação dele e da cantora Joan Baez nos
festivais de Jazz e Folk de Newport foram contemporâneas
às aparições públicas de protesto
político-social, como na vanguarda da Marcha dos Direitos Civis,
em Washington, 1963, dando o tom musical da efervescência
provocada por ambos músicos naquele caldeirão cultural em
plena ebulição. Baez afirmava sua
indignação com os desdobramentos da guerra no
Vietnã e das lutas sociais nos EUA: “Há coisas que
me chocam profundamente: o assassinato de crianças por poeira
radioativa ou o assassinato dos espíritos pela
segregação racial”
O mundo ocidental e, particularmente, os EUA, nunca mais conseguiriam
repetir a capacidade coletiva de reflexão proporcionada por esta
circunstância histórico-cultural, cujas influências
marcariam toda a década dos anos 1960. Haveria ainda muitas
manifestações de massa e muita capacidade de
mobilização crítica naqueles anos. O rock/folk
daqueles anos constituiria o pano de fundo musical para tais
manifestações.
E, enquanto isto, que ocorria musicalmente do lado de lá do
Atlântico, ou seja, na Grã Bretanha? Bem....em cidades
como Londres, Newcastle e Liverpool, o impacto causado pela
influência do blues/country/folk atingiu em cheio talentos como
John Mayall, Eric Burdon, John Lennon, Paul Macartney, Mick Jaeger,
Keith Richards, Pete Towsend. Os Bluebrakers, Animals, Beatles, Rolling
Stones e o The Who começavam suas fulgurantes
trajetórias.
Esta será, todavia, uma outra história a ser contada.
Livro para consulta:
MUGGIATI, Roberto "Rock, o Grito e o Mito" Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1981, 3ªEd.,121p.