Jorge Nascimento:
Professor de história.
Mestre em história da América Latina .
Doutorando em história da América Latina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul .
Participou de diversos eventos com entrevistas as rádios; Guaíba, CBN e na TV Educativa, bem como palestras em diversas univercidades como: UFURGS, UNISC e Nacional Villa Real  na cidade de Lima no Peru.
História do Rock

BLUES & ROCK, ALGUMAS CONEXÕES

“The Blues had a baby and they named it rock’n’roll” Muddy Waters

(O Blues teve um filho e eles o chamaram rock and roll)

Os anos 1950 apresentaram o rock como um gênero musical norte-americano de consumo de massa. Ao contrário de seu “pai”, o blues, o rock afirmou-se no mesmo período cronológico de consolidação do “American Way off Life” (Estilo de Vida Americano), ou seja, os vinte anos que se seguiram à IIª Guerra Mundial, quando os EUA confirmaram sua hegemonia político-econômica no mundo ocidental. Por isso, enquanto o blues permanecia circunscrito a determinadas regiões, o rock ganhava notoriedade mundial. A indústria fonográfica, o rádio, a televisão e o cinema, fenômenos midiáticos paralelos e mutuamente influentes, gradualmente impulsionaram o rock a atingir o status de fenômeno musical planetário, sobretudo nos anos 1960 e 1970.

O débito do querido “filho” com o pai, entretanto, sempre foi relembrado e reconhecido, seja a partir de manifestações dos “blues men” ou dos roqueiros. Howlin Wolf, por exemplo, velho blues man, afirmava que o impulso à música cantada por Elvis Presley vinha do blues. Já Little Richard e Bill Haley são exemplos de roqueiros que reconheciam a importância do blues para o rock and roll. A valorização do blues dada pelos britânicos na segunda metade dos anos 1960, tornar-se-ia um dos exemplos mais eloqüentes desta eterna dívida de um estilo musical ao outro. Basta que ouçamos o repertório de bandas como Cream, Fleetwood Mac, Free e Savoy Brown; ou que acompanhemos a trajetória musical de John Mayall and the Bluesbrackers, para termos uma idéia deste imenso legado deixado pelos blues ao rock.

As influências registram-se desde a forma mais evidente de executar e compor, até o batismo de bandas ou títulos musicais. Pink Floyd, por exemplo, nada mais é do que a junção do nome de dois blues men: Pink Anderson e Floyd Council. Rolling Stones foi derivado do título de uma música do blues man Moody Waters, “Rollin Stone”. Em 1996, a revista “Guitar Player”, em sua edição de abril, publicou um artigo contendo a discografia particular de Jimmy Hendrix, talvez o mais guitarrista de todos os tempos. Nela salientavam-se os blues men Robert Johnson, Jimmy Reed, Moody Waters, Sonny Boy Williamson e John Lee Hooker.

Mesmo bandas de rock mais recentes, como a norte-americana The White Stripes, homenageiam o blues, como no CD “De Stijl”, dedicado aos blues men Blind Willie McTell e Son House.

Cabe citar, finalmente, um testemunho de B.B.King, grande guitarrista e blues man. Segundo manifestou em recente depoimento a um especial sobre os dois gêneros musicais, o blues também deve muito de seu reconhecimento mundial, ainda que tardio, ao fenômeno de valorização e prestígio impulsionados por bandas de rock, sobretudo britânicas, que, ao apontarem o débito que o filho, “rock”, tinha com o “papai”, blues, ajudaram com que este último não ficasse restrito a algumas regiões dos EUA, ganhando, portanto, também uma divulgação internacional. Caso contrário, muitos blues man manter-se-iam no anonimato.

Que este parentesco continue, portanto, vivo, valorizado e influente.

“Long live for the father and the son”. (Longa vida ao pai e ao filho)

História do Rock:  Parte II
    
THE ROCKET IS UPPING (O Foguete está Subindo)


Fulgurante! Este parece ser o adjetivo adequado quando se observa a trajetória do foguete chamado "Rock'n Roll" a partir dos anos 1950. Os nomes dos pilotos desta nave, por si só, dão conta da força de empuxe imprimida à turbina deste míssil através dos "mass mídia" daqueles anos: Buddy Holly, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Bill Haley, Chuck Berry, Elvis Presley e muitos outros talentosos astronautas.
Ouvir músicas como "Johnny B. Goode"de Chuck Berry e vê-lo interpretá-la com seu passo de pato; escutar "Rock Around The Clock", de Bill Halley; a energética interpretação de "Tutti Frutti", de e por Little Richard; ou, no mesmo calibre, "Great Balls of Fire", com Jerry Lee Lewis, passou a ser a preferência de uma juventude cooptada a participar do presente grandioso da nação norte-americana pós IIª Guerra Mundial. Ouvia-se e, principalmente, dançava-se o rock.
A indústria fonográfica começava a valorizar o estilo musical que, baseado no blues, ganhava multidões de adeptos. E não esqueçamos: se o blues é eminentemente negro, nada como termos algo que mescle um pouco esta base com uma pitada de brancura, ampliando a popularidade. O resultado foi um produto de massa chamado "Rock'n Roll". Não é a toa que o "Rei do Rock" foi um branco com voz negra, tal qual os norte-americanos não se cansaram de referir a respeito de Elvis Presley. Pois Elvis simbolizou exatamente o produto mais aperfeiçoado do gênero: ótimo cantor e exímio dançarino. O furor causado por Elvis em muitas de suas apresentações ao vivo, sobretudo sua performance de palco com um balanço pélvico provocativo, sublimaram a sexualidade daquela geração em meio a uma sociedade valorizadora do puritanismo e do conservadorismo. Foi a era de Elvis, "The Pelvis".
Não nos esqueçamos, todavia, que a popularidade do rock não se deveu unicamente ao aspecto mercadológico. Culturalmente ele se tornou uma das formas de expressão geracionais mais influenciadas pela revolução sexual, que começava recém a dar seus primeiros passos. A contribuição dos "beatniks" também foi impactante, sobretudo através de seu estilo anti-materialista, prenunciando a livre expressão juvenil e o experimentalismo existencial "pé na estrada"(On The Road) que explodiria nos anos 1960.
A porção juvenil e rebelde que o rock expressava, no entanto, necessitou ser controlada pelo "stablishment" norte-americano. No final dos anos cinqüenta a figura de Elvis com cabelo cortado e dando o exemplo na hora de servir o exército de seu país, tal qual qualquer jovem da época, parecia ser a retribuição conservadora por tanta aparência rebelde. Holywood reproduziu constantemente este Elvis, impulsionando ainda mais sua popularidade. Elvis serviu como voluntário por dois anos. O controle exercido sobre a juventude ganhava reforços. Nada mais patriótico e, ao mesmo tempo, contraditório em relação à performance do "Rei do Rock" ao interpretar freneticamente "Blues Suede Shoes". Contra a força questionadora do rock, o "enquadramento" de seu mais popular ícone. Pior que isto!? Pior só vendo-o obeso e decadente no final de sua vida, nos anos 1970, cantando nos cassinos de Las Vegas.
A combinação daquelas variáveis durante os anos 1950, entretanto, impulsionou o "foguete rock" cada vez mais alto. Há quem diga que esta foi a verdadeira era de ouro do Rock'n Roll". Quem quiser conferir esta opinião, favor escutar a música "American Pie", de Don Mclean (1972), que tenta dar uma panorâmica daquela época. È um verdadeiro balanço daquele período, que incluiu uma homenagem a Buddy Holly, na qual Mclean afirmava que a data da prematura morte daquele seu ídolo fora o dia em que a música morrera.

Rock' n' roll
História do Rock: Parte III
              “The Answer is blowin’ in the wind”(A resposta está sendo levada pelo vento)

   Se em outra oportunidade apontamos a influência do blues e seus acordes musicais como fundamentais para a existência do rock and roll, não podemos, igualmente, esquecer a contribuição do folk e do country para o amálgama deste fenômeno. Podemos afirmar, mesmo correndo o risco de certa simplificação, que estes dois últimos estilos constituíram a colaboração “branca” ao produto final. O término dos anos 1950, basicamente marcado pelo rock and roll, acima de tudo dançável, transformar-se-ia, no início dos anos 1960, no estilo musical simplesmente denominado como rock.
   No “lado de cá do Atlântico”, ou seja, nos Estados Unidos da América, Bob Dylan seria um dos maiores responsáveis por esta contribuição folk/country. A influência das letras de Dylan ocorreu em meio à efervescência da geração beat e encontrou sua raiz na obra elaborada por Woody Guthrie. Em 1960 Dylan mudou-se para Nova York e encontrou-se com este seu ídolo, dando sobrevida, juntamente com o filho deste, Arlo Guthrie, a uma tendência caracterizada por letras de cunho social provenientes do cotidiano de trabalhador humilde vivido pelo veterano compositor. Se o blues já revelava o mundo real, com todas as suas dores e sofrimentos existenciais, a contribuição do binômio Guthrie/Dylan colocaria mais “lenha na fogueira”
   A poesia e a rebeldia representadas pela chamada contracultura tornava-se cada vez mais a expressão desesperada de uma geração que refletia o lado obscuro de uma sociedade que ainda vivia a lógica do modo americano de viver (American Way of Life), mas que possuía suas contradições internas ao não proporcionar a um considerável contingente populacional os benefícios daqueles anos dourados da virada de década(1950/1960). Passada a geração “rebelde sem causa”, consagrada por Hollywood através de papéis marcantes no cinema, vividos por James Dean e Marlon Brando, sobrevieram personagens como Jack Keruac, Allen Ginsberg, na literatura e, acima de tudo, Robert Zimmermann (Bob Dylan), na música, cujas reflexões e poesias abriram caminho a uma juventude cada vez mais questionadora do establishment.
   Enquanto conservadores e liberais, republicanos e democratas, partidários militares da guerra (hawks/falcões) e da paz (doves/pombos), se digladiavam em clivagens que incluíram desde o assassinato do presidente Kennedy à crise dos mísseis de Cuba e a intervenção norte-americana na Guerra do Vietnã e Camboja, a sociedade cada vez mais tomava consciência e, sobretudo, assumia posições em relação às grandes questões nacionais e internacionais. A música folk/country expressa por Dylan foi exatamente a trilha sonora deste momento peculiar da história americana e mundial. Ela passou a ser a alternativa de expressão dos que se recusaram à imposições ideológicas. “...quantas vezes devem as balas de canhão explodir até que sejam banidas para sempre?A resposta, meu amigo, está sendo levada pelo vento” Na época, Dylan afirmava: “Minhas canções protestam contra a guerra, as bombas e os preconceitos raciais, contra o conformismo”  Mesmo com certa oposição de muitos tradicionalistas, Dylan quebrou os cânones do folk em 1965, eletrificando-o  e dando  um vigor expressivo a músicas como “Mr. Tamborinne Man” combinadas com denúncias ácidas do sistema, como em “Desolation Row”A participação dele e da cantora Joan Baez nos festivais de Jazz e Folk de Newport foram contemporâneas às aparições públicas de protesto político-social, como na vanguarda da Marcha dos Direitos Civis, em Washington, 1963, dando o tom musical da efervescência provocada por ambos músicos naquele caldeirão cultural em plena ebulição. Baez afirmava sua indignação com os desdobramentos da guerra no Vietnã e das lutas sociais nos EUA: “Há coisas que me chocam profundamente: o assassinato de crianças por poeira radioativa ou o assassinato dos espíritos pela segregação racial”
   O mundo ocidental e, particularmente, os EUA, nunca mais conseguiriam repetir a capacidade coletiva de reflexão proporcionada por esta circunstância histórico-cultural, cujas influências marcariam toda a década dos anos 1960. Haveria ainda muitas manifestações de massa e muita capacidade de mobilização crítica naqueles anos. O rock/folk daqueles anos constituiria o pano de fundo musical para tais manifestações.   
   E, enquanto isto, que ocorria musicalmente do lado de lá do Atlântico, ou seja, na Grã Bretanha? Bem....em cidades como Londres, Newcastle e Liverpool, o impacto causado pela influência do blues/country/folk atingiu em cheio talentos como John Mayall, Eric Burdon, John Lennon, Paul Macartney, Mick Jaeger, Keith Richards, Pete Towsend. Os Bluebrakers, Animals, Beatles, Rolling Stones e o The Who começavam suas fulgurantes trajetórias.
   Esta será, todavia, uma outra história a ser contada.


Livro para consulta:

MUGGIATI, Roberto "Rock, o Grito e o Mito" Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1981, 3ªEd.,121p.